terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Chegadas e partidas

Cinco minutos observando as pessoas no Terminal Rodoviário Tietê são suficientes para obtermos uma vasta amostra do que um ser humano pode sentir. A tristeza de uma partida denunciada pelo choro compulsivo; a alegria de reverum ente querido após longo tempo; o cansaço, fome e sono após uma extenuante viagem que pode durar mais que 3 dias; a pressa em chegar à plataforma de embarque para não perder o ônibus; o espanto em chegar pela primeira vez à cidade grande. Os enormes e pesados sacos que chegam trazem mais que guloseimas e comidas típicas "da roça", estão mais carregados da saudade daque infância no meio do mato que não volta mais; as enormes e pesadas caixas que partem tentam levar ao sertão um avanço tecnológico que parece "progredir" cada vez mais rápido. Muitos sonhos começam no Terminal. Mas a realidade daquele lugar rodeado por grades logo demonstra que os sonhos não são facilmente realizáveis. O Terminal é um lugar de emoções: a alegria se mistura e se confunde com a tristeza. Pois, como Maria Rita já cantou "a hora do encontro é também despedida". E nenhuma despedida é fácil. E as pessoas que chegam? Será que trazem dentro de si mais saudades do que (e de quem) ficou para trás ou têm mais alegria e esperança de prosperar na metrópole? E a prosperidade a qual me refiro pode ser financeira, amorosa ou até mesmo física (talvez um tratamento médico que só os grandes centros possam oferecer)...enfim, o Terminal Tietê é um fiel retrato da cidade de São Paulo, tão grande, mas já tão pequeno, tão cinza e superpopuloso, tão assustador e acolhedor, com uma diversidade cultural tipicamente brasileira. Começando sonhos e terminando histórias. Um elo entre o passado e o futuro.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A troca

Todo bom filme começa com uma boa história. E a história de "A troca", o novo filme de Clint Eastwood, é primorosa. Ambientado nos anos 20 e 30 na Califórnia, narra os percalços de uma mãe em busca do filho desaparecido. A polícia de Los Angeles, conhecida pela incompetência e corrupção, supostamente soluciona o caso, trazendo à mãe desesperada um garoto. Mas aquele não é o filho desaparecido. Começa então uma verdadeira batalha de uma mulher para recuperar aquele que ela mais estima na vida, contra a insensatez de uma polícia receosa de admitir um erro e virar chacota na imprensa. Não vale à pena esmiuçar aqui o desenrolar da trama, pois a intenção é apenas estimular os leitores a irem ao cinema. Mas há que se exaltar algumas características do filme. A mais importante de todas, na minha opinião, é a importância e acreditar nas pessoas, dar um voto de confiança, contar com a ajuda dos outros. Em tempos tão sombrios, a desconfiança é latente no ser humano. Mas, apesar de tudo, apesar das contradições, afirmo que o filme passa essa mensagem: vale à pena acreditar nas pessoas, por mais que quebremos a cara, em algum momento seremos recompensados, e então sentiremos que nossos esforços não foram em vão. Outro aspecto marcante do filme é o que a mobilização dessa mãe foi capaz de obter em benefícios para toda a cidade. E o filme é baseado em uma história real. Fico me perguntando porque histórias como essa nunca chegaram aos nossos ouvidos, porque não são lembradas como exemplo. Fico me perguntando porque guerras são sempre lembradas, porque em 2005 comemorou-se 60 anos do fim da II Guerra Mundial, quando deveríamos lamentar todos os dias o início de uma guerra qualquer que seja ela. A verdade é que histórias de perseverança acontecem todos os dias, mas não nos damos conta. "A troca" é, acima de tudo, uma história de esperança, esperança em muitas coisas, não apenas em reencontrar um filho desaparecido. Filmaço!!!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Yes, they can

Finalmente chega ao fim a desastrosa administração de George W. Bush. O mundo pode voltar a sonhar com paz. Ouvi falar hoje que após as guerras preventivas de Bush, os EUA não foram mais atacados em seu próprio país. Mas então me perguntei: os EUA já foram atacados em seu território antes do 11/09 (esse já na gestão Bush...)? Um governo que abriu mão da geração de empregos e estímulo da economia para gerar guerras ao redor do mundo e semear o ódio pelo ocidente não poderia ter outra avaliação senão a pior da história daquele país. Um presidente que chegou ao poder de maneira questionável e baseado no medo ganhou mais 4 anos para aterrorizar aqueles que não se posicionavam como "aliados". É evidente que não faria um sucessor, aliás, é evidente que um candidato de seu partido não gostaria de ter um cabo eleitoral desse tipo em seu palanque. Então, os americanos, à maneira deles (não podemos exigir demais...) decidiram dar um basta no conservadorismo. É assim que Barack Obama chega ao poder, como o portador da esperança. Guardadas as devidas proporções, a eleição de Obama tem similaridade com a eleição de Lula em 2002 (lá, a esperança venceu o medo com 6 anos de atraso em relação ao Brasil...). O povo americano quer alguém que volte os olhos para os EUA ao invés de tentar resolver os problemas do mundo. Diga-se de passagem, os problemas não foram resolvidos nesses 8 anos... a suposta tentativa de levar a democracia ao oriente resulta em permanente estado de alerta no Iraque, com a possibilidade constante de ataques contra o "força de libertação" norte-americana. Enquanto isso, em seu próprio país, cada vez mais leis são aprovadas no sentido de dizimar as liberdades individuais, valor tão estimado pelo povo americano. Quem prometeu a cabeça de Bin Laden, teve que se contentar em dar a cabeça de Saddan Hussein, o mesmo que adquiriu armamento de guerra anos atrás, com o apoio do então presidente Bush "pai". Nesses últimos 8 anos, passei a considerar George W. Bush o terrorista mais perigoso do mundo, por 2 razões: ele espalha o terror pelo mundo, tem o maior arsenal da Terra a seu dispor e o pior, não é procurado pelas polícias mundiais! De resto, quero sugerir um alvo aos "terroristas": da próxima vez, destruam a Estátua da Liberdade, pois com certeza o número de civis mortos será menor e a eficácia do ato será incomensurável, já que George W. Bush acabou com as liberdades do cidadão americano. E que Obama possa dar um jeito nos EUA sem para isso sugar as economias periféricas, como já aconteceu em décadas anteriores. É esperar e torcer pra que dê tudo certo...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Carta de intenções

De: pais santistas
Para: seus respectivos filhos

Filho, o motivo que me leva a essa conversa não me agrada, mas é inevitável. Preferia não ter que falar nada, mas entendo sua indecisão. Poderia ter, desde seu nascimento, buscado influenciá-lo e registrar todo esse processo, para intimidá-lo, mas não o fiz. Não seria correto, pois não fizeram isso comigo. Essas coisas têm de acontecer de maneira natural, mas antes preciso te dizer algumas coisas. Como um jornalista disse certa vez, "o pai que não faz time do filho é, de certa forma, um fracassado" (em tempo: o jornalista se chama Flavio Gomes, é torcedor da Portuguesa, assim como seus 2 filhos). Não sei se o que tenho a te oferecer é satisfatório, mas ainda assim vou tentar. O Santos não ganha títulos todo ano, não é "imortal", não tem a maior torcida do país, não é "um bando de loucos", não é "campeão de tudo", nem mesmo é da cidade onde você mora...mas, em quase um século de existência até agora, ainda conseguimos ostentar algumas exclusividades: somos o maior campeão nacional, o primeiro brasileiro a conquistar o mundo, o melhor clube das Américas no século XX (estes 2 últimos ninguém nos tirará). Não ganhamos sempre, mas quando ganhamos...ah, como saboreamos nossos títulos, valorizamos cada um de verdade. Eu mesmo esperei 18 anos pelo primeiro e não hesitaria em esperar o dobro disso novamente. Nossa camisa representa a essência do futebol brasileiro, somos capazes de perder partidas e finais, mas ainda assim encher os olhos com a mais bela nostalgia de quem as vê. Não somos loucos nem torcedores doentes, porque loucura e doença é não torcer por esse time de tantas glórias. Não somos imortais porque nunca passamos pelo desgosto de sermos rebaixados, outro fato que poucos clubes "grandes" (eita palavrinha banalizada no futebol...) podem ostentar no Brasil. Sim, nossa casa é modesta, mas é um templo do futebol, palco de espetáculos memoráveis. Não somos campeões de tudo, mas tudo aquilo de que somos campeões foi merecido e desfrutado. Estamos longe de ser o melhor time do mundo, mas tivemos o melhor do mundo em nosso time, e isso não mudará jamais, é eterno, assim como aquele número 10 às costas de uma camisa branca sem patrocínios com o nosso distintivo à frente. Por fim, filho, tento minha última cartada: sabe aqueles tipos de histórias fantásticas que os avôs costumam contar aos netos, aquelas que parecem contos de fadas, com reis, princesas e bruxas? Pois então, meu filho, só posso te assegurar que todas as histórias fantásticas que você ouvir durante sua vida sobre o Santos Futebol Clube são verdadeiras. quando você estiver escutando e tentar imaginar em sua mente, por mais absurdo que algo possa parecer, realmente aconteceu...O Santos ajuda a escrever a história da humanidade (até guerra já parou), espero que você possa ajudar a escrever a história do nosso Peixe.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O filme do ano

"Batman - o cavaleiro das trevas" é uma das mais recentes provas de que o cinema (inclusive o cinema americano, tão habituado a emplacar sucessos nas telas brasileiras) pode provocar inquietações e suscitar questões que estimulem o pensamento. Sim, nesse novo "Batman" ainda estão os carrões, as gostosas, as piadas-clichê e os efeitos especiais que arrancam suspiros. Mas salta aos olhos do espectador a perturbação que seus personagens transbordam pela tela. Quem é mesmo o vilão da história? E o mocinho, é mesmo tão herói quanto aparenta? O interesse individual pode, em algum momento, se sobrepor ao interesse coletivo em uma sociedade "justa"? Os fins justificam os meios? Em meio a tantas perguntas sem resposta, questões que nem uma vida inteira pode responder de maneira incontestável, o personagem do promotor Harvey Dent simboliza a dualidade pela qual vários personagens passam no filme. Batman rastreando todos os celulares da cidade para encontrar o Coringa, no melhor estilo George W. Bush; um criminoso da pior espécie toma uma atitude que os "homens de bem" não foram capazes e joga o detonador de uma bomba pela janela da barca, enquanto os "cidadãos" exemplares em outra barca exigem o acionamento do detonador; policiais a serviço do crime e um "vilão" que queima o dinheiro sujo obtido pela máfia. No olho do furacão, uma mente brilhante e doentia instaura o caos na cidade, ou apresenta idéias libertárias? Difícil tirar conclusões nesse filme, certo mesmo é que o Batman realmente não é um herói nem o Coringa um vilão, ambos são um espelho que refletem não valores como justiça e violência, mas sim atitudes politicamente incorretas, porém eficazes. Eles demonstram, assim como o Duas Caras, como a linha que separa o bem e o mal é estreita. Se equilibrar nessa linha é a justiça, algo muito difícil de conseguir. Como dito no filme, as pessoas poderosas ou vivem pouco e morrem como heróis ou vivem muito até se tornarem vilãos. "O cavaleiro das trevas" retoma uma característica imprescindível aos meios de comunicação, os questionamentos, sem para isso abrir mão do entretenimento, e por essa razão o considero o melhor filme do ano.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Injustiças do futebol (ou a torcida que não merece o time que tem)

Desta vez não quero falar do meu Santos. O momento me priva de demonstrar com a devida intensidade todo a prazer e orgulho que torcer pelo peixe me proporciona. Não sou daquele tipo de torcedor que vai sempre ao estádio. Isso tem suas vantagens e desvantagens. Por exemplo, por ir pouco, posso me gabar de estar "invicto" quando vou aos estádios. Por outro lado, sinto falta das emoções que só uma arquibancada insandecida pode oferecer. Tenho muita consideração por torcedores que têm a chance de acompanhar o time do coração na maioria dos jogos da temporada. E não me refiro à torcida organizada, mas ao torcedor comum, o verdadeiro torcedor, aquele que está com o time na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Principalmente, na tristeza. Costumo dizer que é fácil ser santista quando vencemos um clássico, ou quando conseguimos um título. Difícil é quando o time passa por momentos complicados. Deve ser meio bizarro, mas eu mesmo só uso camisas do meu peixe quando o time perdeu no dia anterior, ou antes da partida, justamente pelo que acabei de falar. Torcedor oportunista é que nem político em época de campanha: só aparece na hora "H". No Brasil, há torcidas fantásticas, que realmente empurram o time, mas o time nem sempre está à altura da paixão do torcedor. Um caso clássico, na minha opinião, é do Atlético-MG, que tem uma das torcidas mais apaixonadas do Brasil, mas vê, em pleno centenário do clube, um time que não ganhou nada, nem mesmo chegou à disputa de finais. Quero citar apenas mais 2 torcidas: as maiores do país, Flamengo e Corinthians. Sem dúvidas, 2 torcidas que amam seus clubes. A primeira é capaz de transformar um gigantesco Maracanã em um caldeirão digno dos estádios mais acanhados; a segunda, acompanha o time sempre, nos piores ou melhores momentos. Mas os times talvez não correspondam a toda essa "devoção". O Flamengo patina no BR-08 e vive de títulos estaduais há algum tempo; o Corinthians, rebaixado em 2007, disputou a segunda divisão em 2008. Poderia continuar aqui citando exemplos. Mas existe uma torcida que não merece o time que tem. Veja só: o time é frequentemente citado como o mais organizado do país, possui o maior estádio privado do Brasil, tem média de 1 título por ano nas últimas temporadas, monta sempre times no mínimo competitivos, tem, disparado, o melhor técnico do país, uma diretoria competente, e não é costume ter presidentes que se acham o dono do clube. Apesar de tudo isso, a média de público desse time em seus 16 primeiros jogos do BR-08 foi de 12 mil, mas foi superior a 55 mil nas 2 últimas partidas, agora que o time assumiu a liderança do campeonato, há 5 rodadas do final. Curioso que o mesmo ocorreu em anos anteriores. E de 2 semanas pra cá, fui inundado com e-mais de torcedores desse time exaltando sua equipe. Sem contar o evidente aumento de circulação de camisas desse clube pelas ruas de SP. É uma pena pra esse time (não para eu, que já me acostumei com isso) que, entre tantas qualidades, não consiga fidelizar seu torcedor, não consiga tornar a terceira maior torcida do país um pouco mais companheira, pois os momentos de tristeza um dia chegarão, esses chegam para todos...
O futebol é realmente injusto...ainda bem! Pois se não fosse assim, não seria o maior esporte do mundo, o mais apaixonante, o mais idolatrado e inexplicável. Sem a imprevisibilidade, o futebol seria mais um esporte comum, e é essa sua insistência em rejeitar os obviedades que o torna tão atraente. É por isso que umas torcidas têm mais alegrias que tristezas, mesmo muitas vezes não sendo tão merecedoras delas... Pode ser apenas inveja de minha parte, mas pode ser também uma constatação. Parabéns pelo hexa, agora só faltam 2 para igualar o octa do nosso alvinegro praiano.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Surge um herói no esporte

O GP do Brasil de F1 de 2008 já entrou para a história. Uma das corridas mais emocionantes dos últimos tempos, não contente em decidir o campeão da temporada, o fez nos últimos metros, com uma emoção digna de uma partida de futebol. Felipe Massa, desde os treinos livres, demonstrou sua superioridade em Interlagos, e na corrida liderou o tempo intiero, fazendo a sua parte e vencendo a prova. Restava então torcer, como fizeram os milhões de brasileiros pelo país. E o Brasil acreditou que era possível. E Massa acreditou que era possível. E o país torceu como há tempos não fazia. Mas o destino foi caprichoso e, a 2 voltas do fim, colocou na boca dos brasileiros o gosto de ter um campeão mundial novamente. Mas, a 2 curvas do final, recolocou o título nas mãos do inglês Lewis Hamilton. Um brasileiro venceu no Brasil, mas o sentimento era de derrota. Difícil compreender esses momentos, onde a vitória parece não ser suficiente. Mas o que se viu vai além de um título mundial ou de uma vitória. Pois quando se percebe toda a dedicação e, principalmente, o orgulho de representar o seu país, estamos diante de um herói do esporte. E o Brasil é muito carente de ídolos em esportes individuais. Talvez o último grande nome tenha sido Guga, no tênis. Mas Felipe Massa agora entra para esse time. Mostrou competência, serenidade, vontade, solidariedade e ousadia quando necessário. Brilhou tanto quanto o campeão. Nos mostrou a dignidade e a beleza que um vice-campeonato pode ter. E nos encheu de esperanças de ver o Brasil novamente com um campeão mundial na F1 nos próximos anos. Por ora, um orgulhoso segundo lugar. E um novo herói esportivo. Parabéns, Felipe Massa!